Medicina de precisão no câncer: o papel dos biomarcadores e da pesquisa clínica

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Durante muitos anos, o câncer foi classificado principalmente de acordo com o órgão em que se desenvolvia: câncer de pulmão, mama, intestino, próstata e assim por diante. Essa informação continua sendo essencial, mas a ciência passou a enxergar uma camada adicional da doença.

Tumores que surgem no mesmo órgão podem apresentar características moleculares diferentes. Genes, proteínas e outras características presentes nas células tumorais podem fornecer informações importantes sobre o comportamento da doença e, em determinadas situações, ajudar a orientar decisões terapêuticas.

Essa abordagem está no centro da chamada medicina de precisão.

O que são biomarcadores?

Biomarcadores são características biológicas que podem fornecer informações sobre um câncer.

De acordo com o National Cancer Institute, testes de biomarcadores podem procurar genes, proteínas e outras substâncias relacionadas ao tumor. Alguns desses marcadores podem ajudar médicos e pacientes a identificar opções de tratamento para determinados tipos de câncer.

Dependendo da situação, um biomarcador pode contribuir para compreender:

  • características específicas do tumor;
  • possíveis opções terapêuticas;
  • prognóstico;
  • resposta a determinado tratamento;
  • evolução da doença.

Mas é importante destacar: encontrar uma alteração molecular não significa necessariamente que exista um tratamento indicado para ela. A utilidade de cada teste depende do tipo de câncer, do contexto clínico e das evidências científicas disponíveis.

Biomarcador tumoral e teste genético hereditário são a mesma coisa?

Não necessariamente. Essa diferença é importante.

Um teste realizado no tumor pode identificar alterações que surgiram nas células cancerígenas ao longo do desenvolvimento da doença. Já os testes genéticos hereditários procuram alterações presentes desde o nascimento e que podem ter sido transmitidas entre gerações.

O National Cancer Institute ressalta justamente essa diferença entre a avaliação de biomarcadores tumorais e os testes utilizados para investigar mutações hereditárias associadas ao risco de câncer. Em determinados casos, as duas informações podem ser relevantes, mas possuem objetivos distintos.

Como os biomarcadores se relacionam aos tratamentos?

Alguns tratamentos foram desenvolvidos para agir sobre características específicas presentes nas células tumorais. Isso significa que determinados medicamentos podem apresentar maior probabilidade de funcionar quando o câncer possui um biomarcador específico.

Esse conceito está associado, por exemplo, ao desenvolvimento de terapias-alvo e à seleção de pacientes para determinados tratamentos imunoterápicos.

O teste de biomarcadores pode, em situações específicas, ajudar na escolha do tratamento justamente porque algumas terapias dependem da presença de determinadas características do tumor. É uma mudança importante de perspectiva: além de perguntar “onde está o câncer?”, a medicina também pode perguntar “quais características biológicas esse câncer apresenta?”.

E onde entra a pesquisa clínica?

Descobrir um biomarcador em laboratório é apenas parte do caminho. É preciso demonstrar cientificamente se aquela característica realmente possui utilidade clínica.

Pesquisadores precisam responder perguntas como:

  • esse biomarcador identifica pacientes com maior probabilidade de responder ao tratamento?
  • a estratégia é segura?
  • os resultados são melhores que os obtidos com a abordagem utilizada atualmente?
  • quais pacientes realmente se beneficiam?
  • quais efeitos adversos podem ocorrer?

É por meio de estudos científicos e ensaios clínicos que essas hipóteses podem ser avaliadas. A pesquisa clínica transforma uma hipótese promissora em evidência científica capaz de orientar a medicina.

Com o avanço da oncologia de precisão, alguns protocolos passam a considerar características moleculares do tumor entre seus critérios de elegibilidade. Por isso, durante o processo de triagem para determinados estudos, podem ser analisadas informações clínicas, exames anteriores e características genéticas ou moleculares do câncer.

O National Cancer Institute inclui alterações genéticas do tumor entre os possíveis critérios usados para determinar elegibilidade em estudos clínicos. Essa evolução ajuda pesquisadores a estudar tratamentos em grupos de pacientes definidos não apenas pelo local onde o câncer surgiu, mas também pela biologia da doença.

Personalizar não significa simplificar

A medicina de precisão pode tornar as decisões mais individualizadas, mas também aumenta a complexidade da oncologia.

Mais informações precisam ser analisadas. Novos biomarcadores precisam ser validados. Novas estratégias precisam ser comparadas às existentes. E nem todo teste ou tratamento será adequado para todas as pessoas.

Por isso, decisões envolvendo biomarcadores, testes moleculares e tratamentos devem ser realizadas considerando o diagnóstico, o histórico do paciente e as evidências científicas disponíveis.

Pesquisa transforma conhecimento em novas possibilidades

A evolução da oncologia acontece quando diferentes áreas trabalham juntas: assistência médica, biologia molecular, diagnóstico, tecnologia e pesquisa clínica. O IEP São Lucas atua desde 2008 no desenvolvimento de atividades de pesquisa clínica em Oncologia, Hematologia e Terapia Celular, aproximando investigação científica e prática clínica.

Em um cenário no qual conhecemos cada vez mais as particularidades biológicas do câncer, pesquisar significa não apenas buscar novos tratamentos, mas também compreender qual estratégia pode fazer sentido para qual paciente e em qual momento.

Ciência avança quando perguntas se transformam em pesquisa, e pesquisa se transforma em conhecimento capaz de melhorar o cuidado.

Este conteúdo possui caráter informativo e não substitui avaliação médica individualizada.

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